sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

tentativas

Tentava dormir. Não conseguia.
As horas passavam e todo o peso do universo parecia estar ali, do lado da cama, esperando que ela levantasse para posicionar-se sobre seus ombros.
Ela, que tinha vindo ao mundo sem raizes e sabia que sua vida cabia em uma mala qualquer. Que tanto enfrentou o mundo e agora se via consumida por ele.

Não queria levantar da cama. Tinha medo do que viria pela frente. Sem coragem pra ficar de pé, muito menos pra correr atrás de qualquer sonho.
A cabeça perturbada pela culpa e auto-julgamento. "Vamos acabar com essa preguiça." Esqueceu como colorir a vida, então enchia de cores seus livros. Não tinha como pôr ordem nas emoções, arrumava o quarto. Tudo em linhas retas, como imaginava que deviam ser os caminhos.

De tanto medo de ficar sozinha, acabou ficando. Sofria só de imaginar o que poderia estar acontecendo, o que ninguém teria coragem de contar. Escatologias. Perdia o sono e a fé em um futuro melhor, jogou tudo pro alto e decidiu seguir como veio ao mundo: desacompanhada.

Não deveria tentar convencer ninguém de suas verdades, mas sofre pelo que fica escondido atrás da vidraça, da risada alta e das piadas sobre tudo.
Era desespero, todo mundo sabia. Mas ninguém queria enxergar a realidade.

"Isso é vida?" Não. Nem de longe. Mas deixa a vida pra acontecer depois. Depois de estar tudo no lugar certo, milimetricamente posicionado, exatamente onde deve estar.
Acordava cedo, lavava o rosto e colocava em prática a sua especialidade: seguir em frente. Tentando acreditar que alguma coisa vai ter que dar certo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem... Estuda, a frio, o coração aleio. Farás, assim, do mal que eles te querem, Teu mais amável e sutil recreio... <a class="pintag searchlink" data-query="%23MarioQuintana" data-type="hashtag" href="/search/?q=%23MarioQuintana&rs=hashtag" rel="nofollow" title="#MarioQuintana search Pinterest">#MarioQuintana</a>

p-a-z

Tutorial De Sobrevivência
"Não me irrite! Estou na véspera do meu limite!"

10º

Hoje acordei às seis. Vesti a camisa das minhas escolhas, lavei o rosto e comecei a fazer tudo que eu tinha planejado antes de dormir. Talvez eu não tenha feito os planos, alguém os fez por mim. Não importa.
Segui a dieta, fui à academia, dei "bom dia" pro porteiro e pra moça do elevador. Brinquei com o cachorro da vizinha. Como todos os dias, me perguntei se era isso mesmo. Respondi com uma certeza incomum que sim. Era isso que tinha pra hoje, até que o hoje cansasse de repetir o ontem de uma maneira cada vez mais desgastante.
Hoje não tive vontade de falar pra você como o dia foi difícil, ou do quanto as coisas estão complicadas. Ou que ontem esqueci de tomar meu remédio e só consegui dormir muito mais tarde que o normal. Nem da dieta louca, ou que eu odeio estudar o mesmo assunto pela décima vez e continuar sem entender nada. Muito menos da minha vontade de me esconder do mundo, num lugar onde eu não precisasse provar nada pra ninguém. Perdi essa vontade quando eu percebi que meu cansaço lhe parecia fraqueza. 
(Dispenso a falta de sinceridade, sei que você nunca me entendeu) 
Tenho amigas que concordam comigo, ou pelo menos parecem concordar e, por hora, isso me basta. Tem email de trabalho. Tenho que visitar meus pais. Estou com saudade do meu cachorro. Amanhã tem muita leitura. Uma amiga pergunta como estou sem saber de você. Digo que "bem". Não posso direcionar minha energia aos questionamentos do que você está fazendo agora, bem porque deixou de ser minha competência. 
Durmo aliviada por ser essa pessoa que lida bem o finais.  Me entristeço pelo medo que estou dos começos. 
Sigo sem muito interesse pelo que acontece do lado de fora. Aqui estou segura, construindo um futuro que não sei quando vai chegar e onde eu me prometo uma felicidade que me move a continuar lutando. 
Durmo sem ninguém que me dê boa noite ou me faça sorrir por qualquer motivo.
Amanhã acordo às seis. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

esperas

"Muitas vezes a gente não entende por qual motivo determinada coisa acontece. Nos sentimos perseguidos, infelizes, azarados ou frágeis. Mas tudo, tudo mesmo, tem uma explicação. Pode ser que hoje nossos olhos não enxerguem, mas mais pra frente tudo fica nítido. É só esperar e acreditar que tudo se desenrola e fica bem."

atemporal

"Não adianta ficar sentado chorando e esperando uma providência divina. Deus ajuda, sim. Mas Ele também espera que você se ajude."

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

desistindo devagarzinho

"Quando a gente começa a entender que precisa fazer parte do sonho do outro, assim como ele faz parte dos nossos, compreende que amor é um ato de fé. Uma prece às escuras, sem saber direito se existe alguém do outro lado contabilizando toda aquela devoção. Amor é um caminho, que como toda travessia a dois, precisa ser olhado em conjunto que é para se ter certeza de que os anseios se encontram e que nenhuma individualidade permanece prejudicada.
(...)
Eu era a própria desistência buscando abrigo dentro da palavra amor."

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

larga a mão de ser criança!

Tatá era uma criança muito pensativa, entediada e sofria da pior síndrome psicológica que uma criança pode sofrer: não se sentia desse planeta.
Ela fazia todo mundo rir com suas danças esdrúxulas, suas caretas bizarras e seu raciocínio incomum, mas por dentro ela sabia que todo mundo ria e ia embora, logo ela estaria de volta ao seu solitário e chato planetinha neurose.
Um dia, quando Tatá tinha lá pelos seus sete anos, eu sentei com ela na escada vermelha da casa da nossa avó e prometi, acreditando na promessa: calma garotinha pálida de perninhas tortas, um dia você vai viver uma vida de cinema, um dia todos os dias serão incríveis, todas as comidas serão de chefs renomados (desde aquele tempo eu já era metida), todos os amores serão intensos e eternos, todos os dinheiros serão acessíveis, todas as viagens serão possíveis, todos os amigos morrerão pela sua companhia, todas as casas serão com vista para o mar e um campo florido, todas as tardes serão lilás, todas as noites estarão à sua espera.
Tatá arregalou os olhos, me abraçou e nunca mais chorou pedindo a Deus uma vida com mais emoções. Sempre que ela comia quiabo ou assistia a algums desses programas dominicais com a família inteira roncando na sala, ela apenas se dizia em voz baixa: um dia nada será rotina, nada será chato, nada será morno, nada será banal. Um dia eu vou acontecer e o mundo estará aos meus pés.
Esse foi o jeito que eu arrumei, na época, de seguir em frente. Sim, as garotinhas bailarinas do recreio desfilavam enquanto ninguém olhava pra mim, as crianças normais praticavam esportes e nadavam no mar enquanto eu e meus óculos fugíamos de bolas e serenos, afinal, minha família sempre me fez acreditar que eu era mais frágil (e vai ver eu era…). 

Sim, as crianças normais do meu prédio se machucavam na quadra, tomavam chuva, pegavam doenças estranhas umas das outras (eu nunca tive um sarampinho na vida!) e vire e mexe subiam o elevador chorando e aprendendo a parar de chorar. Eu brincava o tempo todo no carpete da sala, sempre protegida de tudo e de todos, menos da minha cabecinha maluca que achava que o mundo todo era feliz e se divertia muito, menos eu.
Mas tudo bem, eu pensava, um dia vou nadar mais que todo mundo, praticar esportes mais que todo mundo, ir para a praia mais que todo mundo, ter mais amigos que todo mundo, ser mais bonita que todo mundo, mais rica, mais popular, mais amada, mais desejada, mais inteligente, mais incrível… tudo bem, é só eu ter paciência, um dia eu vou ser a melhor do mundo. 
Vinte anos depois aqui estou eu, mais meia boca do que nunca. Não sei mais se quero publicar um livro, será que essas linhas valem uma capa? Não sei mais se quero amar alguém, afinal, o amor é imperfeito e sempre me decepciona. Se com 27 anos não consegui ter o corpo das atrizes do Malhação, não vai ser com 37.
Eu não conquistei o mundo porra nenhuma, muito pelo contrário, eu não conquistei nem a minha cachorra, que prefere a empregada.
Não dei um jeito no rodamoinho do meu cabelo sempre sem jeito, não dei um jeito na minha canela fina, não dei um jeito na minha bunda de preguiçosa. Continuo fugindo de bolas, friagens, águas profundas e vírus. Tenho sim uma boa centena de amigos, mas só gosto, e de vez em quando tenho saco, para uns dois ou três.
Outro dia desses eu ganhei uma viagem para ficar num hotel mil estrelas com mil mordomias, mil festas e com vista para a Riviera Francesa. Adivinhem? Acordava triste todos os dias, afinal, não era bem a Riviera Francesa que eu tinha me prometido há 20 anos, era o mundo inteiro.
Não aguento nenhum emprego, afinal, todos são chatos. Não aguento nenhum namorado, afinal, nenhum é perfeito. Não aguento mais levantar da cama de manhã, afinal, nenhum dia é exatamente como eu gostaria que fosse. Não me aguento mais, afinal, eu não virei a mulher que eu queria.
Eu era uma fraude, um erro, eu não tinha dado certo. Minha vida era chata, meu dia era chato, as raras felicidades sempre acabavam ou se mostravam mentiras da minha cabeça. Quem ia me aturar assim, sempre insatisfeita? Eu própria não dava conta das minhas exigências e não me suportava mais. Tudo tinha dado errado, eu continuava me sentindo de outro planeta e, pra piorar, eu tinha mentido para a minha menininha, a única que eu prometi fazer feliz na vida.
Escolhi o vigésimo andar do prédio que eu trabalho e dalí fiquei olhando para a infinita escada vermelha. Estava decidida, fechei os olhos, levantei os pés, soltei a mão do corrimão, enclinei o corpo.
De repente, uma mãozinha pequena e gorducha agarrou na minha camisa e me puxou com uma força que eu jamais poderia acreditar que era dela. Estava escuro mas eu reconheci o rodamoinho na testa, as botinhas ortopédicas e os dentes cheios de aparelho. Foi então que ela me disse, ajeitando os óculos: ei, larga a mão de ser criança!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

só queria

"Foi então que eu resolvi, já que não poderia ser a mais gostosa por uma questão de nascimento, nem a mais inteligente por uma questão de preguiça, ser a mais estranha e a mais engraçada. Hoje eu sou assim, estranha e engraçada. Falo besteira o dia todo, faço todo mundo rir, imito os outros, uso roupas estranhas, tenho estranhas constatações a respeito da vida. Faço caretas ridículas, posso deixar de ser fina num segundo se falar escatologias ou falar putarias for divertir uma mesa qualquer de amigos. Mas de verdade eu só queria que alguém falasse para mim: ei, você é bonita, para de se expor tanto, pode ficar quietinha, pode fechar o decote, pode parar com esse riso nervoso, tô reparando em você, você é bonita."

conclusão

você para de alimentar.
e espera...
um dia morre.